A loucura chegava-lhe aos pés e ela insistia em guardá-la num saco bem
atado, não fosse alguém ver. Via-se ao espelho e lembrava-se de como
dantes aquela loucura lhe ficava tão bem. Decidiu cortar os pensamentos à
moda dos outros, diziam-lhe vezes sem conta que lhe iria ficar bem… e
fica. Mas a verdade é que tem sempre saudades do bem que lhe ficava a
loucura e cortou-a tanto que se deixou ficar igual às meninas das
revistas, essas que são mudas, sorriem no vazio e cujos olhos perseguem
os movimentos dos outros. Nunca mais viu ao espelho a loucura que dantes
trazia, mesmo quando a tirava do saco, não se passava mais que um
espetáculo bem ensaiado. Está fechada, que nem espetro do que foi, num
mundo cénico onde era apenas convidada e passou a ser anfitriã: dá as
boas vindas aos que têm loucura longa e diz-lhes como ficariam bem como
ela.
sábado, 7 de fevereiro de 2015
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Dentes-de-leão
Manda-te o imaginário, ainda vivo, que te agarres à
pretensão de sonhar. Que destrones aquele terror autoritário, que de tão despótico
já te puxa as pernas, as linhas de pensamento, os pretextos e os argumentos.
Foste atirado ao chão, ao chão que pisas, que em algum instante foi teu - ou
ainda é. Encontras-te agarrado às pernas dos lampiões definhados - os quais circunscrevem uma luz defunta, de um amarelo quase hepático, ta apontam à cara e te interrogam a existência, lá do fundo do barulho das luzes; esses lampiões que te
empurram para chão, esse que não é teu, do qual separas os pés no medo de
incorrer em invasão do espaço que ali só poderá ser da sobriedade de quem o pisa…
é melhor não o pisar. Não vá alguém reparar que trago coragem apertada no punho, o qual arrebata qualquer movimento que a tente roubar. E o teu rosto puxado ao de
cima por quem não te estende a mão (e sabe-se lá de que cor o cansaço o terá
pintado… esse teu rosto desbotado). Mastigas o medo que te deixou ali plantado,
no meio de lado nenhum, numa rua com lampiões, aqueles, os das luzes hepáticas
e engoles a coragem mascavada sem mastigar a aspereza que a compõe, talvez por estar amargada pelo
tempo que andou exposta às expirações poluídas dos outros, dos que não estendem
as mãos. Já pensaste que levam malas cheias do ânimo que foram apanhando ao pé
de casa (costumava nascer de forma espontânea, mesmo ao lado dos dentes-de-leão),
de pétalas rosadas das paixões que encontravam nas praias (junto aos segredos
que contava o marulho das ondas) e da coragem em grão, da que vais engolindo
para que não te suma toda (essa havia-a aos magotes, vendia-se avulso ou em
pacotinhos como os de chá)? Não te poderiam dar as mãos. Há que nunca abandonar
aquelas malas cerradas pelo tempo e pelo medo de deixar sair o que lá
permance à mercê do tempo que estraga as coisas, bem sabemos. Não há que
abandoná-las, muito menos ao pé dos lampiões que parecem gente bulímica, não se
estenda de lá um membro regenerado de um metabolismo particular qualquer que só
caberá àqueles objetos, que de lânguidos e de cabeça erguida, deitando luzes
enfermas e vigilantes sobre um círculo imperfeito no chão aos cubos, se parecem
a gente, daquela que anda a apanhar molhos de ânimo nas bermas da estrada, dos
que havia mesmo ao lado dos dentes-de-leão… e coragem, daquela expirada em
validade que eu e tu vamos engolindo para que as palavras não se emudeçam, no
hermetismo do espírito que não vai ser plantado ao pé dos dentes-de-leão, e que
por isso, por se esconder na cave do corpo que revelamos, é difícil tocar com
os pés no chão. Sabe-se lá, as luzes podem ter olhos. Ninguém sabe o que existe
no fundo das lâmpadas que nos vigiam e aleijam as vistas quando as tentamos
olhar nos olhos numa conversa entre o silêncio do nosso ânimo amestrado e o
barulho monocórdico que as luzes cantam.
Fonte: http://www.deviantart.com/art/dandelion-field-84895427 (2/08/2013)
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
A Sneak Peek III
"E os gritos, os gritos eram cada vez mais graves, a sua força também se esvaía… tomara pudesse oferecê-la àquele corpo ali caído, largado à própria metafísica das coisas. Não valia de nada tê-lo tratado como gente, se já não o era sabe-se lá há quanto tempo. O que dói a quem por cá fica, não é ver o corpo despojado, porque não passa da carcaça, mas dói porque é difícil ver as almas e imaginá-las na sua condição de transcendência. O corpo é o que nos fica na memória, o que vemos sempre que recuperamos um passado. Traz sempre uma dor imensa ver ali um corpo atirado à mercê do tempo, profanando a alma que ele vestia."
(01/08/2013 - Andreia Rocha)
"Escape to Sorrow" by utopic man
@Deviantart - http://www.deviantart.com/art/escape-to-sorrow-192544889 (1/08/2013)
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Textos de autor
domingo, 14 de abril de 2013
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Mythic Sounds XI
E depois de um afastamento que nem eu própria sei justificar, fica uma música que me tem inspirado :)
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Música - Sugestões
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
A minha nostalgia tem sentido (s)
Ouve-se, vê-se, cheira-se, saboreia-se e quase se pode tocar…
É o ranger desse chão envelhecido que calco com os pés em
palmilhas, nas minhas memórias, pequenos, só lhes vejo as pontas redondas,
aconchegadas nas meias caneladas. Os gritos dessas dobradiças teimosas,
que insistem em deixar as frinchas abertas para que eu possa espreitar. O
bulício abafado pelas paredes e os risos distantes que ecoam na minha mente.
Os
corredores escuros e os quadros envelhecidos pela humidade e a inconstante luz
do sol… e o resplendor daquela janela virada ao mar. O cheiro a naftalina, o da
terra molhada do pinhal e a maresia que corria nas noites abafadas do verão, odores
juntos que se transformam em perfume distinto… o aroma das minhas memórias…. O
cheiro a café que se extingue no ar, junto ao do pão quente, acabado de fazer e de benzer. E o paladar dos maracujás que arrancávamos
ambiciosamente da sua planta, como se de estranha e limitada iguaria se tratasse.
A sensação de que tudo e todos são maiores do que
nós, alcançam o inalcançável, roçam o intangível e chegam aos lugares mais remotos. De quando em vez, o vazio na barriga de quando nos tomavam nos
braços e nos atiravam ao etéreo… Ia jurar que voei, mas que o ar me trouxe de
novo para baixo. A sensação de coragem, que se foi perdendo e a certeza
infundada de que aquilo seria só o começo, as primeiras páginas esboçadas de um
conjunto de imagens estáticas que vamos guardando, em jeito de livro de
recortes, das memórias que fomos e vamos fotografando.
Eight Senses by Peter Dranitsin
Fount: Fineart America
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Em ato de contemplação
Faz frio... e, enquanto vejo o bafo exalar da boca, ouço a
conversa que tenho comigo mesma. Há muito que já não falava comigo, para
dentro, em voz baixa ou em surdina com a minha mente ou com a alma que trago.
Estamos sós, ouve-se o ranger das palavras e o ruído dos pensamentos que não
contemos. Já não te via há muito tempo e, desde da última vez que te falei, as
respostas eram diferentes. Altercavas por demais, ó alma, agora sossegaste,
quase passaste de espírito a gente, como se a vida te amestrasse, que nem leão
amarrado nessa jaula que não te deixa sair para lá do espaço cercano, cárcere
onde, enfim, todas as essências como a tua acabam fechadas. Escapa-se uma, de
quando em vez, e toma a pessoa que a transporta, mas é raro que tal aconteça.
Guardam esses ânimos cães de três cabeças… Coisas assim não podem sair à rua, é
essencial que se calem, lá dentro das pessoas que as trazem. Não te cales
portanto, ó alma, não deixes que eu própria te asfixie de vez…
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