quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Em ato de contemplação

Faz frio... e, enquanto vejo o bafo exalar da boca, ouço a conversa que tenho comigo mesma. Há muito que já não falava comigo, para dentro, em voz baixa ou em surdina com a minha mente ou com a alma que trago. Estamos sós, ouve-se o ranger das palavras e o ruído dos pensamentos que não contemos. Já não te via há muito tempo e, desde da última vez que te falei, as respostas eram diferentes. Altercavas por demais, ó alma, agora sossegaste, quase passaste de espírito a gente, como se a vida te amestrasse, que nem leão amarrado nessa jaula que não te deixa sair para lá do espaço cercano, cárcere onde, enfim, todas as essências como a tua acabam fechadas. Escapa-se uma, de quando em vez, e toma a pessoa que a transporta, mas é raro que tal aconteça. Guardam esses ânimos cães de três cabeças… Coisas assim não podem sair à rua, é essencial que se calem, lá dentro das pessoas que as trazem. Não te cales portanto, ó alma, não deixes que eu própria te asfixie de vez… 




quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Magias de novidade


Foi como que uma epifania, ver-te ali, debruçado sobre o teu trabalho, e voltar-me a apaixonar por tudo aquilo que já esquecera, ou que simplesmente, passava despercebido, pela tua permanência. Como o livro que já foi ganhando pó na estante. Também me apaixonei por ele, em tempos, mas terminei-o e deixei ao abandono de si próprio, sem que o abandonasse definitivamente, por que ali permanece inanimado, preso em si mesmo e na sua matéria, dando-me permissão para voltar a ele e rever o que me fez colhe-lo de uma qualquer prateleira de livraria.
Ganhaste, subitamente, magias de novidade, o teu cheiro familiar parecia-me diferente, a forma como te moves com gestos diminutos, subitamente, parecia-me reinventada e o teu olhar atento, aposto a mim, que te olho deste canto, parece-me, então, dotado de um brilho que nunca te vira trazer. Como se transportasses uma alma que diferia da imagem, já pouco lúcida e esborrada que tinha de ti, porque a tua constante presença não me obriga a guardá-la mais lúcida. Sim, mas estas imagens refratárias, que guardamos, fazem falta, quando vamos no comboio e queremos recordar, simplesmente recordar, por conforto ou simples passagem do tempo. Hoje a tua imagem ganhou uma cor especial, os teus trejeitos foram gravados para futuros devaneios, o som da tua voz ganhou outra força e a forma como concurvadas se deitam as tuas costas sobre a mesa, fizeram-me apaixonar por ti novamente… esquecera-me de ti e dos teus pequenos gestos antes de me enamorar pela segunda vez. Vou voltar a guardá-los, não negligenciá-los, para que nunca me esqueça por que te amo.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Bancos de pedra


Eram bancos de pedra irregulares, cinzentos e frios onde nos sentávamos tão desapegados da ideia de desconforto que esses agora nos trazem, porque nos fazem quase doer o espírito de tão martirizados com as irregularidades que nos cravam no corpo, mas que ainda assim, não superam a dormência das pernas extenuadas. Devemos ter andado uns bons metros em subida acentuada e caminho íngreme que nos fazia, a cada passo mais negligente, torcer os tornozelos em cambaleio atrapalhado. Quando éramos pequenos, de corpos escanzelados, com fome dos chocolates que nos vinham à ideia mas que nunca nos compravam, não havia inércia que nos batesse, subíamos em corrida fervorosa, invalidando sempre quem a vencia e humilhando o “ovo podre” que não havia reunido agilidade suficiente. Costumava ser eu a última, mas não me importava, era tudo uma brincadeira e queríamos era alcançar aqueles bancos, os cinzentos de pedra e frios, que, agora que estávamos próximos, depressa se alteravam. Em caos de voz dissonante, como quem discute, mas não leva nada a peito, crianças que éramos, questionávamo-nos, como se de arte abstrata se tratasse, em que realidade alterna, se tornaria hoje o banco. Seria um trono real? Seria a bancada da cozinha? A cama de um urso ou o leito de morte uma princesa que não morria efetivamente? Tantas vezes foi coisa diferente, aquilo que não passava de um banco e que hoje nos incomoda, tampouco nos afaga as dores nas pernas, destronadas pela subida efémera que, naquele tempo, quando éramos feitos de recheio de felicidade espontânea, era um ataque às fortalezas alheias, do qual saíamos sempre em vitória irrefutável, sem mácula, sem mágoa ou arranhão. 

Numa escassez de tempo do qual perdemos conta e a noção da sua passagem, como se corrêssemos saltando barreiras até aos dias em que nos encontramos agora, perdemos a visão e as magias de novidade que todo o objeto, ser vivo ou realidade transportavam e a polivalência a que cada um cabia. Tomou-nos uma cegueira seletiva, formatada, que apenas nos deixa ver a realidade da utilidade das coisas, dos humanos e das árvores, para lá da sua utilidade, nada existe, nada nos interessa e não é mais do que isso, tal como as palavras que ouvimos, lemos ou lembramos não passam de mensagens e recados em jeito de lista de compras ou ladainha decorada. As coisas são o que são e valem apenas por isso… Pensar para além deste conceito, é próprio das crianças e dos loucos e ainda bem que ainda os há, aos dois…





 Fonte da Imagem: http://browse.deviantart.com/?order=9&q=stone+bench&offset=72#/d17qnht

quinta-feira, 19 de julho de 2012

A sneak peek II

"... Mas na noite, o cansaço que nos rasga a pele e os músculos, atira-nos ao chão, combalidos da batalha que fomos tendo com o próprio corpo, com as pernas em desobediência e os braços entorpecidos por uma força já desnecessária. O cansaço que nos toma os olhos para passarmos a desistir do esforço a que viver e pensar nos obriga. Fecha-se a alma, aninham-se os membros, o corpo em espiral e o sono que chega e, que de uma assentada, leva as horas consigo. Sonham-se anos no tempo rarefeito que a noite nos entrega, mas dá-nos a liberdade de viajar, de procurar os sítios já esquecidos, os caminhos que já nem recordávamos e que trilhamos perdidos. Torna-se vívida a memória, enche-se de cor, os traços que esboçamos são reais, mas se não, o subconsciente trata de nos fazer acreditar que sim. Paramos nos depois, atravessamos o durante e acabamos o percurso no antes, dizemos coisas sem sentido, cruzamo-nos com desconhecidos, gritamos num silêncio que não transfigura o ruído que vai passando, lá no sonho que vamos persistentemente sonhando. Falamos sós, falamos com todos, cantámos do píncaro de uma montanha, voamos num mar azul do céu e nadamos nas nuvens, em pequenas poças que a chuva insistiu em fazer. Somos sempre nós, no entanto, da maneira que queremos e as histórias têm o fim que ao subconsciente cabe. Se não gostarmos, acordamos, se gostarmos, foi um sonho realizado." 

 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Fogo-de-artifício


Os olhares colados ao céu, que agora não é mais do que uma tela panorâmica. O silêncio, um silêncio tão incomum… A multidão impaciente, na qual nos fundimos, a mancha coesa que nos abafa e onde o espaço que é nosso, é todo ele partilhado. Enquanto as respirações se atropelam, os sussurros tropeçam e os sorrisos respondem em cumplicidade, todos aguardam militantemente o que se segue, como se fôssemos, numa pequena razão de instantes, donos do nosso destino.
Enquanto as lanternas atacam o céu, em jeito de estrelas artificiais, manchando-o de pontos de luz entorpecida, que se afastam e se desvanecem e o plim insistente dos martelos agoniados se torna mais tímido, aguardam-se os primeiros fogos em percussão desordenada, como se Molière estivesse presente e nos preparasse para o que se seguiria.
De repente, o céu surge pintado das mais intensas cores, tela irreprimível, arco-íris cromático, representação abstrata da felicidade momentânea em perturbação sensorial condensada.
O teu olhar reflete as cores que estouram naquele céu, agora, tão perto de nós e anunciando um estranho limite que desconhecia. Detenho-me entre olhar para lá e olhar para ti, contemplar-te, enquanto, nos teus olhos espelhados, observo, em êxtase bipolar, o espetáculo indeferido nas minhas costas.
Talvez seja pela sensação de felicidade instantânea e/ou por estares aqui, ao pé de mim, por conseguir sentir a tua respiração quente na minha nuca e as tuas mãos penduradas na minha cintura, mas sobem-me as lágrimas à garganta enquanto as cores se sobrepõem em contraste na tela escura e os ritmos se atropelam desordenadamente, como rufos de tambores de uma banda de aldeia.
É como se as almas se revissem naquele espetáculo: o fogo que as apaixona, as cores que as preenchem e a percussão inconstante de um coração pulsante… é talvez por isso que a respiração me falta e as lágrimas desobedecem e todos os anos, todos os que por cá andam, acorrem aos mesmos locais, nos momentos clonados do futuro, para assistir à repetida sequência de banhos de cor e de ruídos que quase nos ensurdecem… na esperança de nos reencontrarmos novamente naquele espaço limitado, partilhado com a mancha humana, que diminui os nossos lugares, num miradouro improvisado, aqui, à beira rio. Por cada ano que passa, a renovação das certezas do que nos une e da felicidade trivial que é partilharmos um fogo-de-artifício. É que ninguém sabe como é assistir ao fogo através do teu olhar…

5/7/2012


Foto by: Pedro Maricoto Monteiro
Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10150995292174839set=a.297595019838.143662.290834929838&type=1&theater

terça-feira, 26 de junho de 2012

Subterfúgio


Quisera eu ficar estática, vislumbrar o movimento do mundo que, apesar de todos os sulcos e lombas, não se cansa de rodar. Passarem por mim as imagens rarefeitas desse tempo dessincronizado do meu, esse estático, inerte, límbico… Imagens translúcidas, em jeito de desaparecimento, porque cada vez mais este meu refúgio se transforma no mundo que quero habitar e o outro, que vejo ao longe, a realidade paralela. Reparei que as sombras são cegas, não me vêm nem se vêm umas às outras. Tropeçam, cruzam-se nos caminhos e só sentem o bafo de quem se aproxima. E eu aqui… na fronteira que me separara deles e do fio ténue que me afasta da loucura… vou ficando por aqui, neste trilho estreito, movimento-me pé ante pé, talvez ninguém dê por mim, guardando o silêncio que os gritos abafados interrompem. Tapo os ouvidos, debruço-me sobre o meu próprio corpo e aguardo… aguardo que o silêncio não me fira e que encontre nele, enfim, a comodidade que tantas vezes ele e a indiferença que arrasta não trazem.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Calçada Portuguesa



Aquela calçada tatuada de pequenas pedras pretas e brancas, calcam-na pessoas, num vai e vem desenfreado, de olhos vazios, carregando sacos cheios de quase nada. De coisas que nem sequer precisam e que vão atirar para um lugar qualquer, quando chegadas a casa. Sigo os olhares que passam por mim, nunca os senti tão vagos, tão desapossados de sentimento, como observo no momento. Como se as emoções se tivessem escapado a qualquer altura e, a fundo perdido, nunca mais tivessem sido recuperadas. É que, nisto dos amores, das paixões e das emoções, não é bem como andar de bicicleta, perde-se o equilíbrio, cai-se ao mínimo balanço ou turbulência, perdem-se as capacidades de as manter vivas, as emoções, e de manter a luz naqueles olhos.
Já nem as peixeiras apregoam o peixe da mesma forma, não se abalroam nos seus dizeres, entre as muitas que se vão acomodando pela rua acima. Apenas interpelam os que espreitam ou os que aparentam dois dedos de interesse. Passei como que transparente, como se não gostasse de peixe ou, simplesmente desse a entender isso.
Apeteceu-me pousar a mochila pesada no chão, nessa calçada preta e branca que, juntamente com os lampiões centenários, quase nos transporta aos filmes antigos… não fossem apenas as personagens estarem tão mutadas na descrição que agora faço. Sento-me naquele banco de rua, espraio as costas, acomodo-me, baixo os óculos de sol da testa, porque o sol me obriga a semi-serrar os olhos num esforço quase hercúleo e vejo que as únicas personagens que se mantêm puras são as que partilharam os filmes antigos, os mudos, os cantados, os falados e os musicados. As gentes de outrora que, por ainda cá andam, falam em viva voz, riem, trocam pareceres políticos mais ou menos fundados e discutem, com um sorriso na boca, acerca dos seus desígnios, das suas opiniões ou simplesmente da menina bonita e cabisbaixa que trespassou o grupo em metade, ignorando, por inconsciência, que ali se formava uma elipse, onde todos se conheciam, ou, pelo menos, partilhavam um propósito.
Uma mulher passa, ela também, personagem desses filmes já desbotados, o tempo corrói o corpo, mas não alma, levo-me, eventualmente a pensar, que encontramos a morte no exato momento em que estaríamos totalmente prontos para enfrentar a vida com a devida prontidão e arcaboiço… Talvez não estejamos a aproveitar o tempo que nos é dado devidamente, sei lá. Enfim, passa a mulher, em marcha corrida, por aquele ajuntamento que não passava despercebido, ao que se ouve:
- Cada vez estás melhor!
- Sou como o vinho do porto! – Respondeu com um sorriso esboçado por entre as rugas que as emoções repetidas foram desenhando no rosto.
Uma gargalhada que tentei prender com os lábios, inevitavelmente, saiu solta, com vontades próprias de riso espontâneo… viram-se os homens e riem-se em uníssono comigo, como se, de personagens do mesmo filme nos tratássemos, num ato de compromisso. Não deixei de pensar, para comigo mesma, se não pertencerei eu a um outro enredo, a um outro elenco ou apenas se sou figurante neste argumento que levo a cabo. Nos filmes antigos, a preto e branco, a calçada mantinha-se intata e as cores das personagens eram sempre garantidas pelos atores, que traziam olhos cheios, lágrimas verdadeiras e sorrisos com matizados.


Fonte:  http://www.google.pt/imgres?um=1&hl=pt-PT&biw=1280&bih=681&tbm=isch&tbnid=fnhh0Llu3at6bM:&imgrefurl=http://www.prof2000.pt/users/secjeste/arkidigi/espinh02.htm&docid=V0mpwAX_AzX5QM&imgurl=http://www.prof2000.pt/users/secjeste/arkidigi/Espinho/Espin022.jpg&w=900&h=552&ei=HpXPT560J-yT0QX-ucHJCw&zoom=1&iact=hc&vpx=370&vpy=165&dur=3847&hovh=176&hovw=287&tx=157&ty=55&sig=110984502861381323981&page=1&tbnh=121&tbnw=197&start=0&ndsp=15&ved=1t:429,r:1,s:0,i:69

segunda-feira, 4 de junho de 2012

De malas feitas


              Correm rumores de que a Joaninha nos vai deixar. Já está a dar o tempo à casa, já a vi a fazer compras de última hora, sabonetes e shampoos, com o namorado, que, pelos vistos parte com ela. Vai partir, porque sente um vazio, a réplica da impotência que todos nós vamos sentindo.
                O António, que morava ali em Espinho, irmão do João que andou comigo na Universidade, também já rumou, penso que para o Brasil. Cansou-se de esperar pelo futuro e de incorrer, em adiamentos constantes, em recorrentes passagens por um pretérito, já muito imperfeito ou por um presente já tão desgastado.
                Cansam-se assim, os muitos que se amontoam em filas das quais não se vislumbra sequer o fim, serão talvez infinitas, pois ninguém de lá volta, ou se retorna, apresenta aquele ar de cansaço, de quem correu atrás do pote de ouro, mas nada encontrou ou então retornam conformados para tentar novamente no dia de amanhã. São, às vezes, duas horas da tarde, e já deixaram de dar tiquets para o outro lado do arco-íris.
                Foi por isso que partiu o António e se segue a Joaninha, porque já lhes doíam as pernas e a coluna do prostramento constante a que eram submetidos, da espera sucessiva, dos adiamentos repetidos e por não poderem esperar mais do que um futuro próximo, um amanhã sempre inconclusivo, como se de uma pena perpétua se tratasse.
          De malas a abarrotar de dúvidas e inseguranças, partem, em filas já também, para o desconhecido, almejando um porvir que lhes permita sonhar e encontrar a concretização para os seus planos. Fogem do marasmo, da falta de oportunidade e das filas, daquelas que não têm fim à vista.
                Eles já lá foram, estão distantes em tempo e em espaço dos que cá ficaram, porque aqui o tempo não passa, ou simplesmente se arrasta e permanecemos, então, no mesmo presente desgastado e roído.
                Resta saber que destino nos compete, a nós que cá ficamos por pura teimosia, porque nos falta a coragem ou porque, simplesmente continuamos a manter a utopia de que um dia as filas possam encurtar, que deixem de nos passar à frente ou de empurrar, que os tiquets cheguem para toda a gente e que a esperança, ganhe, enfim, um novo simbolismo. Porque, no momento em que me encontro, numa espera perpétua numa fila onde se acotovelam, onde se empurram e onde toda a gente transporta os seus sofrimentos pessoais e os seus egos - uns ultrapassam as dimensões do próprio ser, e roubam-nos um lugar na espera – apenas parece que Pandora não resistiu à curiosidade e deixou mesmo escapar a última virtude.
              Essa, cabe a quem parte, que nada mais tem do que uns trocos para se governarem e as dúvidas que não se dissipam. Às Joaninhas e aos Antónios, muito boa sorte…


Emigration song by AnalogPhotographers
http://browse.deviantart.com/?order=9&q=emigration&offset=48#/d1amk5j

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Teoria do Caos


Paciente, como se aguardando um sinal. Expectante, com os sonhos em rascunho e os planos penhorados numa loja de esquina. Sentada, diante de espaço nenhum, vendo gente sem rosto ou de cara esborratada a passar naquele passeio cinzento, enquanto ocupo o tempo com listas de afazeres, listas de compras e listas de utopias. Já quase nem me sobra papel, e já a ponta dos dedos roça, a par do bico diminuto do lápis, na folha amarrotado que recolhi do chão.  Escrevo, correspondo com os meus pensamentos em correio rápido, enquanto, sentada, observo a correria dos que já deixaram de pensar ou de escrever ou até de sonhar e que seguem agora em maquinismo repetitivo e caótico o trilho já traçado nas ruas por onde iam passando. Aproveitaram o fio que a Ariadne deixou para trás e incorrem, numa desordem incompreensível, nas suas batotas pessoais. Já conclui o meu repositório de ideias e de soluções, já alcancei o lugar que estava determinado e nada mais me resta do que aguardar que o destino me alcance nesta rua… não tinha data marcada, mas sei que há-de chegar.



Imagem: http://browse.deviantart.com/?order=9&q=chaos&offset=0#/d1xtpoo

sábado, 26 de maio de 2012

Alegoria


Tudo alcancei, mas nada terminei
Tudo envolto numa estranha imperfeição,
Ou incompreensão, chame-se lá o que quiser…
A indiferença, ou a cobiça disfarçada
A desvalorização ou a inveja dissimulada…
Só sei que nada tenho, que nada alcanço, que nada possuo e, assim me parece, num fatalismo extremo, que nada valho…
Fico-me pelo que tenho, tantas vezes pouco e pelo que tentei, mas nunca terminei. Invariavelmente, a que tudo fazia, a que tudo sabia, a que tudo podia, mas que nada mostrou. Como se fossem um conjunto de boatos entregues pela boca desconhecida ao ouvido, sem qualquer confirmação digna. Como se pouca concretização encontrasse, como se num vácuo habitasse, com o ar falasse. Como se numa realidade alterna aguardasse, impacientemente, que esta se cruze com aquela onde os outros deambulam… até lá, amontoo tralha, desta que produzo e que as vozes que parecem sussurros e as sombras que parecem espectros me dizem que vale a pena ver, verdadeiras pérolas da sociedade escritas em folhas rotas que ninguém lê. As pilhas de papel amolgado (as ideias tortas, postas de lado), a máquina de escrever enferrujada e cansada, as letras meio transparentes, a sombra apenas do que escrevi e o rasurado das palavras que, simplesmente, não são as ideais. O corpo em dormência desta posição em que escrevo, vergada, nesta caverna, onde mal me levanto, onde sou gigante para o espaço que me confina, onde mal me mexo, onde não falo alto, por poder importunar os vizinhos, onde apenas as sombras me chegam e breves grafemas partem…


Fonte: http://vekquin.com/analysis/ (25/5/2012)