Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

O vazio

Sentar-me em serenidade na beira da varanda e olhar a paisagem com noção de infinito. Deixo de perceber a profundidade e a visão lateral e olho apenas sem destino, para o infinito que se impõe na linha que divide o etéreo e o marítimo. Olho, porque me recuso a pensar, mas embrenhada nesta tarefa infrutífera, não deixo de sentir. Sinto a agonia que em mim se abate, a noção de que caminhamos, mas estamos inevitavelmente sós, a noção de que lutamos, mas sempre, corpo a corpo, a ideia de que caímos e que nos erguemos sobre os nossos próprios joelhos e a inevitabilidade das lágrimas que escorrem pelo rosto e que, invariavelmente, nós próprios limpamos com uma manga já rasgada pelo percurso. Fica agora a certeza que, quando enfrentamos o verdadeiro abismo, poucos são os que se arriscam a cair connosco, e são muito parcas as mãos que nos agarram. Nunca, mas nunca estivemos tão sós… E entre mim e esse infinito que vislumbro, o vazio...e a necessidade de continuar o caminho. 

Domingo, 5 de Fevereiro de 2012

Nirvana


Para além do Universo luminoso,
Cheio de formas, de rumor, de lida,
De forças, de desejos e de vida,
Abre-se como um vácuo tenebroso.

A onda desse mar tumultuoso
Vem ali expirar, esmaecida...
Numa imobilidade indefinida
termina ali o ser, inerte, ocioso...

E quando o pensamento, assim absorto,
emerge a custo desse mundo morto
E torna a olhar as coisas naturais,

À bela luz da vida, ampla, infinita,
Só vê com tédio, em tudo quanto fita,
A ilusão e o vazio universais.


Antero de Quental

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

Cansa sentir quando se pensa

Cansa sentir quando se pensa.
No ar da noite a madrugar
Há uma solidão imensa
Que tem por corpo o frio do ar.

Neste momento insone e triste
Em que não sei quem hei de ser,
Pesa-me o informe real que existe
Na noite antes de amanhecer.

Tudo isto me parece tudo.
E é uma noite a ter um fim
Um negro astral silêncio surdo
E não poder viver assim.

(Tudo isto me parece tudo.
Mas noite, frio, negror sem fim,
Mundo mudo, silêncio mudo -
Ah, nada é isto, nada é assim!)
Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'

Porque gosto... porque apesar de ser um poeta do cânone, que toda a gente conhece através dos nossos currículos, este foi o autor que me apaixonou pela escrita e pela leitura. Esta é a Pessoa que, sem conhecer, conheço tão bem e, por eu considerar-nos semelhantes, sinto que me conhece a mim, ele também. Esta é a noite que tantas vezes partilho com ele :)


Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

Voz Débil que Passas

Voz débil que passas,
Que humílima gemes
Não sei que desgraças...
Dir-se-ia que pedes.
Dir-se-ia que tremes,
Unida às paredes,
Se vens, às escuras,
Confiar-me ao ouvido
Não sei que amarguras...
Suspiras ou falas?
Porque é o gemido,
O sopro que exalas?
Dir-se-ia que rezas.
Murmuras baixinho
Não sei que tristezas...
_ Ser teu companheiro? _
Não sei o caminho.
Eu sou estrangeiro.
_ Passados amores? _
Animas-te, dizes
Não sei que terrores...
Fraquinha, deliras.
_ Projetos felizes? _
Suspiras. Expiras.

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

Uma informação importante

Ou nem por isso. Os que me seguem são poucos, mas merecem a minha atenção e uma justificação pela minha relativa ausência deste espaço. Não quero terminar aqui este projecto, mas, no momento que corre, não estou nas melhores condições para escrever e penso até que os meus últimos textos têm descido a pique de qualidade, portanto, apesar de estar a decorrer o concurso "Blogs de 2011", vou ausentar-me um pouco, como autora, deste espaço. Continuarei a postar textos com os quais me identifico, mas muito provavelmente, pouco mais do que isso. 

Obviamente que me explico... Sucede-se que, quem me lê ou quem me conhece, sabe que sou professora, não com muito orgulho, no momento em que estamos, mas sou. Sou jovem, portanto, o tenpo de serviço que tenho acumulado, tem sido uma sorte e simultaneamente um sacrifício. Já para não falar que a minha variante (Latim e Grego) desapareceu e a Pós-Graduação que tirei em Educação Especial serviu apenas para entreter um pouco os miúdos com deficiência, porque tenho vindo a cair a em resvalo nas listas de ordenação e o tempo de serviço na área, poucas escolas o valorizam... Em três anos em que tive o prazer de leccionar, só num fiquei colocada no início do ano, nos outros, Janeiro foi o marco e qualquer tentativa de procura de emprego noutras áreas tem sido, no mínimo infrutífera. Já me conformei, tenho a maior das sortes em vários aspectos, outro tanto azar noutros, mas na vida profissional é um resvalo atrás de outro e uma luta constante que nunca se avizinha fácil. Muitas frustrações e sentimentos de impotência do tamanho de nós próprios. A existência dos compadrios, a frieza com que somo tratados como números ano após ano desumanizou esta profissão que eu amava tanto. E sabem que mais? Acho que não sei fazer mais nada... trabalho com pessoas com deficiência desde que me conheço e sinto que encontrei o meu nicho, o meu verdadeiro dom e negam-mo, não posso trabalhá-lo nem hoje, nem amanhã, nem aqui, nem em Angola. Nem umas míseras explicações e apoios consigo...

Quem me lê sabe o tamanho da minha razão e das minhas emoções e porventura consegue sentir e pensar o mesmo que eu, saberá como. de momento, uma sensação de inutilidade se abala sobre mim. É como se agora tivesse de esperar que o tempo resolvesse o que já tentei infinitamente resolver e simplesmente não consigo. Não sou uma pessoa negativa, sou uma pessoa de emoções, de riso fácil e de choro espontâneo, mas no momento em que me encontro, ruí. Ruí que nem uma muralha de um Castelo majestoso... aliás, passa-se o mesmo que nessa mesma muralha... as memórias dos momentos áureos, as lutas marcadas nas pedras e o cansaço da erosão que os tempos e as batalhas infligiram em mim. 

Sofro de um problema enorme, da falta de oportunidades e não sei se tão cedo encontrarei remédio para ele. Não invejo ninguém, tenho os maiores dos defeitos, mas não invejo com malícia, só invejo a sorte, não queria as aquisições dos outros, apenas as mesmas oportunidades de lutar por elas, mas antes mesmo de se iniciar a corrida, já a perdi e isso causa, em qualquer humano, uma sensação incomportável de pequenez e de impotência... e daí, as toalhas terem caído ao chão e até mesmo a escrita me falhe. Não há vontade, apenas a inércia e a contagem dos minutos, para ver finalmente, ao fim de um dia de solidão, uma cara sorridente...

Falha-me muito o bom censo e encho-me da coragem que não tinha, para me afastar de tudo e de todos para tentar uma melhoria de vida... mas já sem acreditar nisso e apenas por descargo de consciência.

E no meio de toda esta convulsão, já não me encontro. É mesmo assim, as experiências dão-nos sempre tanto quanto nos tiram e saímos sempre mudados, alterados... apenas receio que não seja para melhor.

E por todos os motivos que aqui exponho em desatino, penso que não terei grandes capacidades para escrever e se, de alguma forma, ler-me vos dava algum prazer, peço muita desculpa e prometo tentar compor-me da melhor forma, mas neste momento, sinto a quebrar-me e acho que ainda passarei algum tempo a apanhar os cacos e a compor-me...

Um abraço bem apertado

A. Rocha

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

Blogs do ano de 2011 - Aventar

As votações já estão abertas e este blog está na categoria de livros/literatura/poesia.

Agradeço o vosso voto! Basta clicar na imagem para ser redireccionado :)





Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

A dor

A dor

O caminhar descalço sobre as pedras aguçadas,
Roer os joelhos contra a calçada rugosa,
A fricção do meu corpo no chão arenoso.
O ar frio que inspiro, os gritos estridentes na minha mente.
O sol intenso contra a minha retina. O empurrão. O esmagamento.
A exaustão. As correntes nos pulsos.
A respiração sôfrega. O coração aos pulos.
Os gemidos latentes. O abandono, o esquecimento,
a desilusão, a traição e o afastamento.